14 de nov de 2011

Que espetáculo é esse?


 
No próximo sábado, 19, crianças e jovens atendidos pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Goiânia apresentarão a peça Reinações de Lobato na Terra da Inclusão, no Teatro Rio Vermelho, às 20 horas.
Até aí nada de novo. Afinal de contas, apresentações artísticas já se tornaram uma tradição nas festas de encerramento do ano letivo das escolas. A novidade está na continuidade de um espetáculo que a maioria das pessoas não vê nem percebe.
Estamos falando do grande espetáculo que a arte realiza na vida dos deficientes físicos e mentais. A proposta não é exclusiva da Apae. No Rio de Janeiro, por exemplo, há o Museu de Imagens do Inconsciente, que teve origem nos ateliês de pintura e modelagem do Centro Psiquiátrico Pedro II.
Por lá, o trabalho com arte começou em 1946, quando a psiquiatra Nise da Silveira organizou a Seção de Terapêutica Ocupacional. O doutor em Artes José Otávio Motta Pompeu e Silva, professor do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), lembra que o Brasil é um dos pioneiros na adoção da arte com função terapêutica.
As primeiras experiências foram desenvolvidas ainda na primeira metade do século 20, pelas mãos dos psiquiatras Ulisses Pernambucano, Osório César e da já citada Nise da Silveira.
“Estas técnicas, desenvolvidas de forma muito sofisticada em nosso país, nunca foram incorporadas pela Psiquia-tria e sempre foram vistas como acessórias”, conta Pompeu e Silva.
De acordo com ele, só recentemente apareceram cursos de Arteterapia e Musicoterapia e algumas outras profissões, como Terapia Ocupacional e Psicologia, que passaram a utilizar a arte de forma terapêutica.
Propostas idênticas
Algo muito diferente da época de Nise, quando a Psiquiatria considerava, deliberadamente, o tratamento pela arte como um método subalterno e mero auxiliar. Já no contexto mundial, o uso da arte em prol de outras áreas não é novo.
“Desde a década de 40, pensadores influenciados pela crise de um mundo dilacerado pela 2ª Guerra Mundial, propuseram ideias da 'educação pela arte', defendida pelo inglês Hebert Read”, lembra Pompeu e Silva.
O professor enfatiza que não só as pessoas com deficiência, mas todos os seres humanos, devem ter condições de se expressar pela arte.
Mesmo com tanto a favor, ele acredita que a arte, não necessariamente, significa a cura de uma doença. “Nise falava que não recuperava ninguém; que o doente poderia ter uma melhora, mas nunca ficaria igual ao que era antes”.
O objetivo da psiquiatra, segundo Pompeu e Silva, era descobrir a vocação da pessoa utilizando a arte de forma que a expressão cultural do indivíduo fosse potencializada.
Proposta semelhante é buscada nas atividades artísticas oferecidas pela Apae de Goiânia. No espetáculo Reinações de Lobato na Terra da Inclusão, há atores, bailarinos e artistas plásticos.
Essa multiplicidade de funções se justifica porque todo o cenário e materiais cênicos são produzidos também pelos alunos da associação.
Há, ainda, aqueles que estão nas oficinas de teatro, dança e música, mas que ainda não participarão dessa montagem. “Fazemos uma seleção para o espetáculo a partir do que o aluno traz. Entra no elenco aquele que já mostrou um desenvolvimento maior nas aulas de teatro, dança, ritmo, coordenação motora”, comenta o diretor Ronei Maciel, também autor do texto da peça.
Autoestima
Assim, na opinião dele, os alunos se sentem valorizados e percebem o reconhecimento de seus esforços. Para os que ainda não conseguiram, o trabalho continua. “Atuamos nas oficinas para que, no próximo ano, eles possam se apresentar também”, destaca Maciel.
Para ele, os resultados são muito positivos. “Os meninos se sentem úteis e realmente reconhecidos enquanto cidadãos, enquanto pessoas. Com isso, a deficiência ou a limitação se torna menor”.
Cada projeto artístico é analisado também a partir da perspectiva clínica e pedagógica, em parceria com os outros profissionais da Apae. A recuperação da doença realmente não acontece, mas os avanços são notórios, conforme admite Maciel.
Ele cita como exemplo os alunos autistas, pessoas que não conseguem se relacionar com o mundo e com os outros, e que estão respondendo positivamente às coordenadas artísticas.
“Nós conseguimos desenvolver com eles um trabalho para que eles pudessem se relacionar com o colega. Já é um passo grandiosíssimo”.
Maciel ressalta que mais importante ainda é ver um desses alunos no palco, conseguindo, sozinho, desenvolver uma cena ou coreografia, ainda que simples. Para ele, essas conquistas são um grande avanço no desenvolvimento dos alunos com deficiências.
Não perca!
Para quem quer ver de perto a influência da arte no atendimento a pessoas com deficiências, os ingressos para o espetáculo Reinações de Lobato na Terra da Inclusão estão sendo vendidos na sede da Apae, no Setor Coimbra.
O valor é R$20. Contatos pelo site www.goiania.apaebrasil.org.br ou pelo telefone (62) 3226-8000.
Conheça Nise da Silveira
Psiquiatra pioneira, única mulher na turma de Medicina, primeira a rejeitar os tratamentos com eletrochoques para deficientes mentais, uma das primeiras a considerar a arte nesses tratamentos.
Essa foi Nise Magalhães da Silveira. Ela nasceu em 1905, em Maceió (AL). “Ela foi revolucionária ao colocar a arte no mesmo patamar da Ciência e, ao invés de eletrochoque, propor o pincel e a tinta para o tratamento de doentes mentais”, destaca o doutor em Arte, José Otávio Pompeu e Silva.
Considerada uma das mulheres mais importantes do século 20 no Brasil, Nise atuou na Terapia Ocupacional dez anos antes do primeiro curso dessa área ser reconhecido no país.
Durante muitos anos, trocou informações com o suíço Carl Jung, que estudava o inconsciente humano para compreensão da loucura.
Foi essa influência que a levou a criar, em 1952, o Museu da Imagem do Inconsciente, para a exposição das obras produzidas por seus pacientes. Hoje, o museu possui um dos maiores acervos do mundo de obras confeccionadas por pacientes vítimas de doenças mentais.
Nise faleceu em 1999 em decorrência de complicações respiratórias. Deixou vários livros, entre eles Terapêutica Ocupacional: Teoria e Prática e Imagens do Inconsciente. Roteirizou também o filme Imagens do Inconsciente, dirigido pelo cineasta Leon Hirszman, e foi a fundadora do museu que permanece funcionando no Rio de Janeiro.
Fonte: Tribuna do Planalto

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